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segunda-feira, 8 de junho de 2009

O café-com-leite que tranquiliza


A imagem da serenidade pra mim é um copo de café-com-leite. Café-com-leite quente, mas não pelando, cheio até a borda no copo de requeijão ou americano. Bastante açúcar, nem muito claro, nem muito escuro. Café-com-leite às cinco e meia da tarde, sem pressa, mas sem preguiça e sem cansaço. Nada de cappuccino, nem espresso corto nem cem-por-cento arábica. Café do mercado do bairro, o que estiver em conta, e leite de pacotinho, tipo C. Solúvel, nem pensar. Sob o sol ainda firme se for verão, sob o laranjal do lusco-fusco se for primavera, sob o céu cor de cimento se for outono, sob a penumbra do frio se for inverno. Acompanhado de pão com margarina e só, sem modéstia, sem pretensão. O café-com-leite de quem vai vivendo, sem buscar novos sabores, sem sofrer pelo que não pode, sem querer o que não conhece. Quando eu flerto com o cotidiano e miro na vizinhança uma pessoa tomando assim no fim da tarde o seu café-com-leite, sem fazer dele uma refeição faustosa, sem também por isso deixar de tomá-lo, alimentando-se porque é animal, de café-com-leite porque é cultural, sinto-me contagiado pela tranquilidade. Sim, pois num mundo que não é nem anterior nem posterior à cafeína e à tecnologia nutricional, mas que corre alheio a estas, como que no seu fusca velho mas original e que não sente a menor vontade de olhar para o lado quando para no sinal pra ver o carro que lá está; nesse mundo que não tem respostas porque não faz perguntas, o café-com-leite pode ter uma agradável ação ansiolítica.

sábado, 16 de maio de 2009

A morte (é) premeditada

Naquele bar de velhos velhos penados, as almas eram pesadas. Só mais um sujo boteco numa rua imunda de uma cidade esquecida de um triste país num terceiro mundo qualquer. Nem as putas frequentam o lugar, não porque os velhos dali são velhos, pois velhos também anseiam gozar, mas porque são velhos de almas miseráveis e bolsos piores. Se uma por ali aparecia, era pra beber barato a própria miséria de ser uma puta velha sem valor no mercado dos prazeres carnais, tão dominado pela tristeza juvenil e até infantil dos peitinhos incipientes mas carnudos dos dezesseis anos. Ali ninguém a tocava, e se trepava era por misericórdia e era de graça.

Nesse bar se encontravam desgraçados, não pra lamentar qualquer coisa, se suas vidas eram horríveis, delas não se poderia fazer filmes ou livros. Não viveram grandes amores, dramas ou tragédias. Apenas viveram, meio a contragosto, sempre sem paixão. Encontraram na cachaça o asilo para a perseguição da vida compulsória. Não era a descrença nem um saber elevado nem as decepções que os levavam ali. Era uma miséria que sentiam e que não poderiam expressar porque não a conheciam. Estavam vivos e viver era melhor com álcool. Assim esqueciam que existiam.

Pouco conversavam, não havia muito a ser dito. E quando diziam, não iam longe. Discutiam mesquinharias da vida ordinária, que cidade fica mais perto de que cidade, o nome de uma rua, o ator daquela novela de 79. Ficavam nisso. Não havia televisão, não comiam. A mesa de sinuca era pra adolescentes que vinham e iam e nada mudavam. Não lamentavam nada. Não brigavam. Nada disso faria sentido pois não eram tristes - tristes eram suas vidas. Estavam lá porque eram obrigados a existir e o suicídio era algo em que nunca haviam pensado. Aliás, não havia porque fazer isso se no fim iriam morrer de qualquer forma.

Um dia o bar não abriu. Na porta, um bilhete. O chapinha, um dos ébrios, havia morrido. Alguma coisa no coração que os médicos não se preocuparam em descobrir o que era. Afinal, já estava morto. E se ainda vivo era um corpo sem quem o reclamasse, que seria morto? Seu funeral estava vazio. Os bêbados não foram. Acharam outro lugar onde beber. O dono do bar, que não era bêbado mas tinha a alma embriagada, aproveitou o pretexto e ficou em casa de cueca vendo televisão. Foi enterrado no túmulo da família. Não acharam uma foto pra colocar ao lado da de seus pais. Ficou pra depois. No dia seguinte, o bar abriu. Os bêbados ficaram felizes, puderam voltar. Falaram sobre o chapinha, lamentaram, ninguém chorou.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Da epidemia e do sangue quente


Que surpresa boa saber que tanta gente leu e gostou do último post. Levo todos com muita estima. Como eu disse a uma pessoa que comentou ter lido o texto sobre o domingo, acho que se eu sobreviver à minha própria vida, lá no finzinho, no crepúsculo da existência, quando a luz da consciência se transformar num lusco-fusco efêmero, triste e lindo, vou me desfazer em memórias. Pois se aos vinte e quatro já as tenho com tanto apreço, que dirá aos oitenta (e que os deuses me permitam tal graça!). Entretanto fiquei um pouco preocupado.

É quente o sangue que oxigena este cérebro e estas mãos que lhes escrevem. Carrego ainda o ímpeto da juventude - que alguns carregam para sempre. Minha urgência de escrever nem sempre é de contemplação. Às vezes, preciso mesmo transcrever um sentimento colérico. Mas claro, nada é a toa. Acredito muito que uma certa raiva, uma revolta, são sentimentos de quem ama. É um estilo de amor, certo, tipico daqueles que, como eu, têm no coração um pulsar quente e violento. Amor que não é melhor nem pior que outros amores, é apenas o único jeito de amar a estes possível. Talvez um pouco trágico, encampo cruzadas contra os problemas mais insignificantes - talvez os elevo, assim, quase à categoria de males da humanidade. Mas isso é tão somente porque eu amo, e não falo só de mim, mas a partir de mim, dos milhões como eu. Discuto bem mais do que eu gostaria com a minha companheira, mas isso é apenas porque a amo absurdamente. E ela sabe que se um dia eu me calar, será o fatídico sinal de que meu amor virou brasa, ou pior, fez-se já em cinzas.

Mas por que este confessional e confuso prólogo? Com sinceridade, não há um porque. Apenas lembrei disso pois na segunda metade da semana passada nós todos começamos a ser bombardeados pela televisão com notícias sobre uma tal gripe suína. Logo no primeiro dia já pensei, pronto, após ter morrido de aids, ebola, gripe aviária, bactéria legal, protozoário assassino, terei a honra de morrer de gripe suína. Com a dignidade, aliás, de quem uma vez desencarnado, percorrerá os mundos em seu galante traje de espírito de porco. É brincadeira... Nossa sociedade tem um imenso sentimento de culpa por existir. Desde os mais remotos tempos olhamos para o céu nos perguntando quando a brincadeiria iria acabar, quando Ele, o dono da bola, viria tomá-la de volta. Inventamos fins do mundo que, ao não se realizarem, se renovam na expectativa de novos fins do mundo. Viver é bom demais para ser verdade e seremos castigados. A mídia sabe disso. E sabe mais, que além dessa paranóia apocaliptica, temos historicamente fatos preocupantes, como a peste negra que dizimou 1/3 da população européia ou a gripe espanhola que vitimou 60 milhões de pessoas. Isso torna o medo a mercadoria mais vendida no mundo. Para além da já conhecida "teologia do cagaço" que manteve a igreja católica medieval em pé, a indústria do medo vende muitos remédios e muito, muito jornal. E foi isso que fizeram. O curto verão da gripe suína, aka H1N1, aka influenza a, durou uma semana. Hoje já suspeitam o que sempre souberam, que a terrível, letal, mortal, cruel, devastadora, genocida e apocalíptica gripe não passa de uma... gripe. Uma gripe mais forte, é verdade, mas uma gripe. E com que sarro vi matérias e matérias nos jornais sobre como 'identificar sintomas da gripe suína'. Dor de cabeça, febre, dor nos músculos, articulações... Será possível que acompanhando o homem desde seu surgimento ainda não sabemos identificar os sintomas de uma gripe?! Dir-se-á que, ora, uma gripe foi a gripe espanhola e fez o estrago que fez. Pois bem, em 1918 morria-se de apendicite (e as cirurgias eram feitas sem anestesia, com éter!). Além do mais, algo que em incomoda muito é o fato de saber que morre-se muito ainda hoje de doenças completamente sem graça. Não vendem mais jornal. São as feias e bobas cólera, malária, febre amarela... e a fome. Ah, se a inanição fosse contagiosa... Enfim, agora já começo a chover no molhado. As notícias são cada vez menores e mais raras. A maior vítima disso tudo até agora foi a liberdade. Pois muito obedientemente fechou-se um hotel, um país, uma planeta. Nos mais remotos lugares, pessoas pacificamente aceitaram o medo e medidas cautelares. O abraço foi proibido. Daqui a amanhã, numa nova devastadora epidemia de uma semana, talvez proibam o sorriso. Por fim, um dia chegará em que provarão os malefícios clínicos de se pensar.

domingo, 26 de abril de 2009

Manhã de Domingo

Manhã de domingo tem cheiro de banana frita, sair de pijamas do quarto, olho em remela, ir para a sala e receber bom dia. Era meu vô (desculpem, nunca tive avô, apenas um bom e velho vô) quem fazia, um de seus bem poucos dotes culinários - mas tinha que ser domingo. Comia no mesmo pratinho velho de plástico de sabe-se lá quantos anos e cujas bordas sabe-se lá há quantos anos eu gostava de mordiscar. Banana caturra, adorava bem fritinha, quase queimada, já com aquele leve amargor nas extremidades e com muito açúcar e canela. Comia com felicidade. Ao fim, o fundo do prato estava besuntado numa gordura doce mas já não tão apetitosa. As manhãs de domingo também soavam a globo rural, quando a arroba era apenas uma unidade de medida de peso e as maiores mazelas do mundo, pulgões, vassouras-de-bruxa, ferrugem e outras pragas agrícolas (durante a semana era o Esqueleto). Coisas que não faziam parte do meu mundo senão como o meu mundo das manhãs de domingo. Ainda não tomava nem café com leite - demorei pra entender o sabor forte do café - mas nunca cansei de admirar o vô tomando seu café-com-leite caiçara, ou seja, café preto com farinha de mandioca. Sempre me oferecia, rindo, troçando do meu asco infantil - talvez lembrando, talvez ignorando, ter aprendido a tomar o café assim também na infância, quando o leite raramente dava o ar da graça. Avançando a manhã, o cheiro do domingo era do jornal, volumoso, de páginas enormes e cuja tinta grudava até nos olhos na mais ligeira lida. Nunca gostei das páginas de jornal, inclusive porque eram grandes demais pra eu conseguir dobrá-las (não consigo me lembrar porque motivos eu as desdobrava, mas com certeza era a curiosidade de saber que diabo diziam aquelas minúsculas letrinhas) e acabava que eu as deixava jogadas ou dobradas muito porcamente, o que sempre me rendia alguma reprimenda. É incrível dizer isso, mas manhã de domingo também tem o cheiro da cabeça do vô, que sempre muito voluntariamente sentava-se ao sofá e servia-me seu ralo cabelo como diversão. Fazia penteados, sendo o moicano o meu preferido, assim como o "bozo". Mas o que gostava mesmo era de puxar seus cabelos com força. Ele não sentia dor no couro cabeludo, aliás, não sentia nada, nem dor nem calor nem frio. Eu podia puxar com força, mas que tomasse cuidado pra não descolar seu couro cabeludo, dizia. Nunca acreditei nisso. Pra mim ele apenas gostava de ter seu neto sob a sua cacunda brincando com seu cabelo e suas orelhas (havia me esquecido delas). Logo o vô saía de casa, como aliás fez todos os dias até que um dia foi seu último. Enquanto isso eu brincava com meus bonequinhos, via as séries de domingo na tv, como macguyver ou simpsons (sempre odiei barrados no baile) ou jogava a fita de master system se alguma eu tivesse locado na sexta-feira. Quando o vô voltava, era hora de almoçar e era sempre macarrão. Assim acabavam as manhãs de domingo, que são vivas nas minhas lembranças e que me dão esperança e desejo de voltar a tê-las com tanta serenidade e poesia em tanta simplicidade. Talvez seja impossível fora da infância, mas quem sabe, ao menos se um dia tiver um neto as minhas costas e se ainda houver bananas caturras a fritar...

sábado, 18 de abril de 2009

O Ébrio de hoje

Eu juro que vi isso hoje, o que não significa que tenha acontecido.

* * *

Às 5 da tarde, três homens sentados à mesa do bar. Um deles tem a palavra. Ostenta o pior cabelo que alguém pode ter, pior até que não ter cabelo: um corte ao estilo Ney Latorraca. Bigode acinzentado, expressão séria. Os outros dois ouvem com atenção quando ele diz

Você sabe o que é chegar aos sessenta e três...

Pausa dramática. O copo vai à boca e nela escorre um suave gole. Seca os lábios. A audiência, à qual nesse momento somava-se eu, apreensiva. Via amargura naquela frase, quem sabe uma vida de agústias e desejos incompletos, sonhos humildes e irrealizáveis, solidão amarga. Típico desabafo de um ébrio cujo único desejo que lhe resta é ter em seu derrareiro abrigo apenas outros ébrios loucos a chorar e a desabafar. Mas o senhor de olhar impenetrável, continuou

... dando duas por semana?