sábado, 18 de abril de 2009

O Ébrio de hoje

Eu juro que vi isso hoje, o que não significa que tenha acontecido.

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Às 5 da tarde, três homens sentados à mesa do bar. Um deles tem a palavra. Ostenta o pior cabelo que alguém pode ter, pior até que não ter cabelo: um corte ao estilo Ney Latorraca. Bigode acinzentado, expressão séria. Os outros dois ouvem com atenção quando ele diz

Você sabe o que é chegar aos sessenta e três...

Pausa dramática. O copo vai à boca e nela escorre um suave gole. Seca os lábios. A audiência, à qual nesse momento somava-se eu, apreensiva. Via amargura naquela frase, quem sabe uma vida de agústias e desejos incompletos, sonhos humildes e irrealizáveis, solidão amarga. Típico desabafo de um ébrio cujo único desejo que lhe resta é ter em seu derrareiro abrigo apenas outros ébrios loucos a chorar e a desabafar. Mas o senhor de olhar impenetrável, continuou

... dando duas por semana?

terça-feira, 14 de abril de 2009

O Marujo

A revista piauí promove um concuso literário mensal. É dada uma frase e você deve compor um texto em que a frase aparareça com algum sentido. No mês passado concorri com esse texto.

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O Marujo

Era fim de tarde e os últimos fiapos da luz vermelha do crepúsculo já se iam perdendo. O homem rude de expressão fechada entrou em sua casa e, executando o hábito adquirido há apenas um ano com a morosidade de quem o fez há trinta, passou um café forte e o tomou sem açúcar. Aposentado fisicamente por conta de uma hérnia de disco e moralmente pelo fato disso acontecer enquanto ainda possui braços volumosos e fortes, passa os dias remoendo as memórias do que sem querer foi sua vida.

Viajou o mundo todo, teve tantas mulheres quantas foram as noites solitárias em terras estranhas. De algumas destas, traz tatuagens, de outras, cicatrizes. Lembra-se de países que o mundo já se esqueceu. Não se sabe se apesar ou por conta disso, e a despeito do que povoa a imaginação dos sonhadores, nunca gostou de lugar algum que em sua existência peripatética tivesse conhecido. O único lugar de que gostava era exatamente o único lugar de onde fugira e pra onde prometeu jamais voltar. Réu confesso, entregou-se ao mundo como castigo auto-infligido. Pelo menos foi o que acreditou muito tempo atrás, mas durante três quartos de sua vida pensara toda noite, com uma religiosidade que não tem o maior dos cristãos em suas preces, que não passava de mais um ser feito desse repugnante medo e que tem a vida como algo que vale mais que a dignidade. Somente agora que as luzes dessa existência começam a fraquejar é que se dá conta de que a culpa e a vergonha de tê-la salvo fizeram-no enterrá-la fundo na culpa e na vergonha de nela sentir algum prazer.

Era esse o homem que sentava sozinho para tomar café amargo, pois havia vivido a vida inteira sozinho e apenas amargo é que poderia morrer. Decidido que estava a utilizar este tempo último que lhe restara simultaneamente com e sem saúde – o que só poderia ser o poder divino já anunciando que sua sentença estava lavrada – para pensar sobre si mesmo, desejava apenas matar o tempo antes que o tempo desse o troco. E se pensava em si não era por ter-se como a única pessoa que valesse o pensamento, mas por não ter conhecido ninguém mais. Abriu a mesma pequena mala de couro marrom com presilhas de cobre que usara em sua fuga quarenta anos atrás e a descobriu mais vazia que então. Encontrou fotografias de mulheres que talvez tivessem tido pra ele alguma importância. Lamentou não lembrar de nenhuma. Abriu algumas cartas e iniciou sua leitura, mas fazê-lo era como abrir um livro nunca lido em uma página qualquer: falava-se sobre pessoas desconhecidas com seus sentimentos desconhecidos. Viu um envelope velho, ainda lacrado e sem selo algum. Era certamente a mais velha das cartas. A letra parecia conhecida, mas não pôde se lembrar de quem era. Iniciou a leitura. Querido pai: você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Parou. Tomou mais um gole do café que já estava frio. Aconteceu, então, que pela primeira vez desde a esquecida infância, este parricida chorou.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Não Amarás

Após tanto tempo carregando sozinho o fardo do amor secreto, decidiu escapar às muralhas de silêncio que havia construído ao redor de si. Não foi uma conclusão, apenas uma decisão. Na verdade, não passou de mera resolução. Não estava certo do que faria nem sabia ao certo porque o faria. Apenas o faria. Cansou-se de sentir sua respiração diminuindo sempre que ela se aproximava, como se houvesse uma razão simétrica entre a distância que os separava e o tamanho de seus pulmões. Chegou mesmo a sentir-se completamente sem ar na ocasião em que, por mero descuido, se esbarraram. Ela sequer percebeu. Tampouco estava disposto a aguentar em silêncio as mãos trêmulas, a dor no estômago, o suor. Sentia-se ridículo com esse amor psicossomático, amor doentio num sentido muito particular. Queria poder falar-lhe, queria poder existir ao seu lado, queria enfim, ser livre para amá-la, e não viver preso numa gaiola de medo. Aquilo tinha que terminar.

Dedicou uma semana a pensar na maneira como faria a confissão. Concluiu que tudo seria mais fácil se ela jamais o tivesse visto, que fossem absolutamente estranhos, mas não era o caso. Ao longo dessa longa gestação, ele compensou sua fraqueza em declarar-se desvendando minúcias de sua vida. Sabia que ela gostava de penne al sugo, que ouvia música folk e que gostava de filmes violentos. Empenhou-se também em descobrir seu peso, sua altura, a cor exata de seus cabelos e olhos. Sabia tanto que dela passou a sentir-se íntimo. Tristemente, essa intimidade não facilitou nada suas intenções, pelo contrário. Quanto mais próximo sentia-se dela, mais patética parecia qualquer intenção de contato. Sentia-se, a bem da verdade, cínico. Como ele iria aproximar-se de alguém que já lhe era próxima e conhecer alguém que já bem conhecia? Com que cara perguntaria seu nome, seu prato preferido, os filmes de que gostava? Agravando ainda mais a situação, tinha a certeza de ser ele também já próximo dela. Não da maneira como ela era dele, certamente, mas a devassa que fez em sua vida exigiu considerável exposição. Frequentavam, ao cabo desses longos meses e não por acaso, os mesmos restaurantes, a mesma video-locadora, a mesma loja de discos. A essa altura, ela já tinha, inevitavelmente, tomado conhecimento da sua existência e só não desconfiou de nada pela apurada habilidade que ele desenvolveu de olhar perimetralmente e parecer sempre preocupado com seus próprios pensamentos. Entretanto, e dessa forma, como agora iria ele aproximar-se dela? Depois de tanto tempo, por que o súbito interesse? perguntaria ela, ou pelo contrário, poderia achar que se tratava de um maníaco obsessivo. Nesse caso, nem mesmo ele tinha certeza de que isso não era verdade.

Decidiu-se. Passaria três dias evitando voluntariamente encontrá-la e após esse período, na primeira vez em que ocasionalmente se encontrassem, falaria. Passaram-se os três dias. E mais três. E então mais três. Descobriu que realmente era artificial a coexistência de ambos nos mesmos ambientes. Era o décimo dia sem vê-la. Em seus pensamentos, estava desesperado. Sua aparência, logicamente, estava péssima. Não dormira nem metade das últimas noites e até um banho ou outro chegou a faltar-lhe. Nesse dia aconteceu. Passavam das 19 horas, viu seu ônibus saindo do ponto e correu para alcançá-lo. Pensava que ela poderia estar na padaria do bairro onde vez ou outra fazia uma refeição perto das 8 da noite, por isso não queria perder o ônibus (inconscientemente já tinha abandonado o plano do encontro casual, embora ainda não tivesse voltado aos encontros deliberados). Estava, sem dúvida, fora de forma, fulminado pela vida sedentária que sua rotina mimética tinha lhe imposto. Chegou suado e vermelho ao ônibus, deixando evidente a todos sua condição física precária. Pagou, passou a catraca, esforçando-se para levantar a bolsa à tiracolo. Olhou para o fundo do ônibus e a viu. Chegou a hesitar, julgando não ser o momento adequado nem as condições. Como, porém, tinha tomado uma resolução e não chegado a uma conclusão, aceitou o destino e foi ao seu encontro. Pela primeira vez ele olhou fixamente em seus olhos. Não tardou para que ela percebesse que aquele estranho conhecido hoje lhe olhava de forma diferente. Uma senhora, uma mulher com bebê no colo e vários outros passageiros desesperados para descer do ônibus alongaram o caminho dele, que gostou de poder tomar coragem, até ela, que parecia já sentir medo. Chegou perto e sentou-se no banco ao seu lado.

Deu-se conta, nesse momento, de que jamais havia dirigido a palavra a ela. Concluiu que isso isso era lógico, e então percebeu que pela primeira vez o ar não lhe faltava. Estava pronto. Esperou cinco longos minutos até que ela tirasse os olhos da janela – o que diabos tinha de tão interessante la fora? - onde tinham se fixado desde que ele se aproximara. A deixa foi uma freiada brusca que a fez olhar instintivamente para frente. “Ô” foi a primeira palavra que ele dirigiu a ela. Ele se referia ao susto que supostamente tomaram, mas logo percebeu o quanto imbecil é esse tipo de comunicação. Precisava consertar isso logo. “V...”. Era o começo de um “você” que ele começara mas não terminara porque nesse exato momento ela havia virado novamente o rosto para a janela. Ele ia fazer a terceira tentativa quando ela rapidamente abriu sua bolsa e tirou fones de ouvido e os colocou. Resignou-se. Declarou frustrada a aproximação.
No fim dos trinta minutos ao lado dela, já quase não dava importância para a sua presença. Tornou-se indiferente. Durante alguns dias gastou muitas horas pensando se ela havia o evitado de maneira proposital. Chorou, embriagou-se. Sofreu ainda por cerca de um mês, mas a cada dia menos. Certa manhã, sentiu-se novamente ridículo. Sentir-se ridículo era a única coisa que o fazia agir. Decidiu, então, parar de sofrer. Mais uma resolução. Dessa vez foi sem esforço, ele conseguiu. Nunca mais amou.


* * *

Esse é um exercício que comecei a fazer. Trata-se de escrever um mini-conto inspirado por um filme e escrito imediatamente após eu vê-lo e num só fôlego. O filme da vez é Não Amarás, do Krzysztof Kiéslowski. Sem pretensões, só por diversão. Aliás, o filme é fantástico, lindo, bem diferente desse texto. =]

domingo, 5 de outubro de 2008

Mesa, geladeira, câmera fotográfica, televisão, carro.

E desse mundo do qual nada levarei,
pareço tudo querer ter.
Mas não quero - e quero.
O mundo me quer,
as coisas me querem.
Querem meu salário,
querem meu trabalho.
Querem meu desejo,
querem meu delírio.
Querem meu querer,
querem poder ter.

Nada basta,
Tudo é irrisório.
No vazio impreenchível
da angústia
da espera interminável.
Fim do mês.
Fim do ano.
Fim do ciclo.
Fim da vida.

Fim da espera,
quando vem?
Quanto custa?
Em quantas vezes?
E tem garantia?
Que garanta a tranquilidade
a felicidade,
o sorriso?

...

E com meus desejos,
o que faço?
São vendáveis?
Vendavais?

Vendo minha alma
Por um desejo apenas, pulsa
Ela só quer paz,
Ela só quer serenidade

...

Posso sentar e esperar
ou pra ficar
eu preciso consumir?

sábado, 23 de agosto de 2008

Crase

Meu Deus, este blog passou um ano com um erro de crase no template! Crase, meu Deus! Um ano!