terça-feira, 9 de outubro de 2007

Palavras ocas



Tem dias que as palavras não vêm. Ficam presas em algum lugar entre o desconforto e o desalento. Nesses dias a vontade é de puxá-las com os dedos e suavemente dobrá-las uma, duas, dez vezes até que tomem formas agradáveis ao olhar. Origami verbal, faria dobraduras em formato de gatinhos, flores, pássaros... Pois há dias em que o silêncio não basta e tampouco bastam as já velhas palavras, gastas pelo tempo, inutilizadas por uma nauseante repetição que insiste em esvaziá-las. De que valem palavras ocas?

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Sangue-frio


Sangue-frio


Sinto falta do que fazia antes. Criptografar em aparentemente banais ou enganosamente profundas mensagens aquilo que são simples devaneios. Coisas que não se diz, eu travisto. Mas a cada dia que passa leio menos, escrevo menos, penso menos. Em sentido contrário, cada vez mais me exijo mais apatia, mais silêncio, mais resignação. Não é fácil ver-se desintegrar lentamente, deixar-se suavemente ir com o vento. Se ontem era incapaz de matar uma inseto qualquer, hoje serei bem sucedido se for um bom queimador de carbono e ajudar a matar um planeta. Espero que passe logo. Farei-me de estúpido, se assim for preciso. Não ouvirei por meus ouvidos, não olharei por meus olhos. Vou me direcionar para dentro do si, último bastião da esperança. Lá onde algo ainda existe. Para além do ordinário, para além do possível.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Viver


o viajante diz que você não viveu se ainda não foi a cuzco
o nostálgico diz que vida de verdade só nos anos 50
o solitário diz que sexo é o que explica a vida
o sonhador diz que a vida é bela
o intelectual diz que a vida é só um conceito
o suicida diz que viver não vale o esforço
o religioso diz que a vida é uma dádiva
o trabalhador diz que viver é trabalhar
o jovem classe média diz que a vida é divertida


eu ouço

domingo, 5 de agosto de 2007

absurdamente


quando você vem
despeço-me todo
de todos os males
e sinto-me leve

esqueço de tudo
e tudo que ouço
são notas suaves
a brisa gostosa

mas quando acaba
acabo perdido
sem vez ou destino
um nada sozinho

quando você vai
eu junto meus cacos
as sobras da festa
e disso eu vivo

terça-feira, 31 de julho de 2007

















Envelheço na cidade.