quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dona Janira

Na última vez em que vi Dona Janira ela cortava batatas pra cozinhar com seu habitual e inescrutável alheamento. Usava a faca velha e grosseira com a habilidade de quem precisa. Logo iria morrer e não estava pra poesia. Enfim, era aquilo? Cortar batatas? Passei pela porta, ela notou minha presença, mas como sempre eu não valia um olhar de soslaio. Dona Janira não gostava de mim porque não havia porquê. Pra quê? Um pai filho da puta, um marido inepto, filhos escrotos e meia dúzia de canalhas sórdidos lhe davam a porção suficiente de homens de que precisava pra saber que eram uns bostas. Não me acercava porque ela enfim estava certa, mas tanto rancor me encantava. Queria me aproximar daquele mar de lástima, me ajoelhar em suas margens e nele ver meu rosto refletido. Os desgraçados se procuram. Mas Dona Janira só procurava as mulheres. Devotava a elas o carinho do desprezo que cuspia sobre os homens. Eu acreditava que a velhice lhe traria a resignação, mas só o que chegou foi a morte de suas amigas. O que mais? Quando sua preferida morreu, depôs as armas. Mas em vez da abertura, descobriu o silêncio. Deixou de responder os monossílabos funcionais e descobriu o prazer da não resposta. Era isso a velhice? Descobertas que chegam tarde demais? Receber as tintas quando o quadro já está todo pintado e repintado e sujo e rebocado? Pouco tempo depois soube que Dona Janira havia matado o marido enquanto este dormia e fugido pro nordeste com uma amiga 20 anos mais nova. Levaram o carro. Deixou na barriga do infeliz a faca de 40 anos que ela vinha usando pra cortar batatas e que guardava na garganta. Decidiu que pintaria o verso.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os meus amigos

Eu e meus amigos tivemos uma educação precária, somos trabalhadores e os que ainda não passaram, beiram os 30. Pra quem não sabe o que é nascer pobre numa cidade pequena e esquecida, somos derrotados. Aqueles cujo único esforço foi aproveitar as oportunidades surgidas talvez ignorem como é a angústia dos que nunca tiveram vez. Músicos, escritores, pesquisadores, artistas - nunca serão. Pelo menos não se tudo correr dentro da normalidade. Mas nós somos teimosos. A alimentar a frustração da realidade, preferimos o um dia quem sabe? Com alguns teci laços de fraternidade tão fortes que nos percebemos dependentes, complementares. Com aqueles já não tão próximos no dia-a-dia, a sensação de completude, no encontro, é ainda maior. De vez em quando um deles me liga pedindo um pouco de esperança. É a coisa que eu faço com mais prazer na vida. Porque toda a esperança que eu tenho é a esperança que eu dou pros meus amigos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Terra, de Sebastião Salgado

Está esgotado e nos sebos, quando encontrado, pede-se já bem pra lá dos 100 reais. Deveria ser gratuito. Universal. Adotado nas escolas. De um só golpe, trabalharia a educação visual pra dar alguma qualidade ao olhar dessa geração extensivamente fotográfica, e a história e sociologia do Brasil. Está tudo lá: etnocídio, latifúndio, êxodo rural, estado, oligarquia, sem terras, opressão e, por que não?, esperança. Tudo o que importa saber. Sai Carlos Magno, com todo respeito, entra Eldorado dos Carajás, com toda violência. Sai oração coordenada assindética, entra José Saramago.

Serra Pelada, Pará, 1986

Ainda não consegui aceitar que as gerações mais recentes que a minha, que é apática, sejam conservadoras. Se com 16, 17 anos, a vida inteira por fazer, uma pessoa não anseia por justiça, o que ela vai querer aos 40, com emprego, casa, carro e filhos? Por que o argumento dilma-não-pois-queremos-igualdade perde tão feio, entre os jovens, para o dilma-não-pois-é-bandida-terrorista? Quando isso acontece, estou muito perto de dizer que todos os anos de ensino de história falharam. Pois tanto bláblábá deveria servir, no mínimo, pra que as pessoas saibam que cada acontecimento histórico só faz sentido dentro de seu contexto.

Sergipe, 1996

Sorvendo Terra com todo o cuidado, lendo cada legenda, observando com atenção cada foto, sinto um misto de nó na garganta, vergonha e blues. Por ser brasileiro, por fazer muito pouco para acabar com o que está ali posto, por ver que, se depender dos mais novos, far-se-á cada vez menos. A sensação que fica é que é um livro que não se repetirá, mas não pela extinção de seu objeto, a luta pela terra, nem pela extinção dos bons fotógrafos, mas pela extinção da sensibilidade que une técnica e tragédia numa obra de arte prenhe de poder transformador.

Sergipe, 1996

Pra pisar fundo nesse sentimento de degenerescência temporal - que, espero, esteja errado - vai um video da época do lançamento do livro. O bufão Jô Soares entrevistando numa só noite, de uma só vez, um ao lado do outro, o Sebastião Salgado, o José Saramago e o Chico Buarque de Holanda. Convido quem não entendeu a piada a conferir os programas atuais do entrevistador.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Um sonho

Sempre quis ter um bar. Manter bigode, cultivar barriga, arregaçar as mangas e viver com um paninho sujo no ombro, sempre pronto pra dar uma limpada não muito generosa no que quer que seja. Já trabalhei em multinacional, quase engravatado, dava conselhos, ordens, recebidos e tinha rês-estagiários. Aprendi a desossar codorna. Na juventude fui preso, levei porrada da polícia e panfletei pelo fim de alguma coisa. Não cheguei a ser infeliz, mas não tinha lá muito tesão. Por isso - ou a despeito disso - me casei três vezes e não tive filhos. Nas separações, dei mais do que pediram. Não queria construir uma catedral no meio do brejo. Tentei conhecer o mundo, mas fui assaltado na Nicarágua e passei a achar a idéia ridícula e cansativa. Sempre dormi vendo a national geographic e, de mais a mais, não queria ter um café em Paris. Meu sonho, o único, era um bar com expositor de fórmica, vina em conserva e duas mesas velhas de sinuca. Eu serviria cervejas sem sorrisos nem grosserias. 75 centavos a ficha. Não faria promoções nem descontos. A música do rádio. Palito de dente. Comprei um bar falido e fui feliz por não ter filhos pra me acusarem de ter desperdiçado a herança deles. Não reformei nada. Não abri. Passei seis meses tomando o estoque, comendo as vinas, as cebolas em conserva e depois os amendoins. Passava os dias passando o pano nas mesas. Só servia a mim. Quando acabaram as balas do troco, não aguentei e saí. Que derrota, não morrer. Estou pensando em abrir.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Pervinha

Sou uma putinha de bairro. Aquela que você vê andando por aí de shortinho e top. Tenho a pele encardida e faço o máximo que posso com meu cabelo. Minha clientela não é exigente. Quando é alguém de fora, perde tempo olhando, tentando descobrir se sou puta ou andarilha mendiga maltrapilha. Demora acostumar o olho, mas quando acham a carne defumada na fumaça do asfalto que eu habito, querem me carregar na boca prum canto escondido, feito uns vira-latas. Os homens me curram com força as derrotas de suas vidas. Sou eu que engulo a porra da miséria da humanidade. Quando me penetram, é um mundo que eu recebo de pernas abertas. Quando gemem, são palavras de ordem que eu libero; quando gritam, é a revolução que não aconteceu. Sem mim, o mundo que me despreza não existiria. Faço parte do rol de coisas e seres misturados que constroem seu próprio infortúnio - que os outros chamam de civilização. Estamos do começo ao fim. Plantamos a semente da comida que os alimenta e recolhemos a merda dos dejetos que despejam. Somos invisíveis porque necessários demais para que o orgulho nos aceite. Eu aceito. O preço das escolhas que não fiz nas oportunidades que não tive. Me divirto mais que as outras. Mais que a senhora decente que recata a puta que a habita com o hábito da virtude; essa puta que o marido procura nas ruas sujas em que me encontra. Posso dançar o que quiser, beber o quanto quiser daquilo que eu quiser. Não preciso me importar com as aparências. Meu jogo é limpo, eu sei o que eles querem, eles sabem o que eu dou. Nunca me deram um livro, já ganhei perfume - acho que eu fedia. Nunca me deram flores, já ganhei uns socos - acharam que eu merecia. Nunca recebi uma proposta de casamento, já perdi a conta das orgias - todos achamos bem mais gostoso. Não alimentem ilusões, eu sou o útero do mundo. Vinde a mim, os fodidos. Trabalhadores do mundo, fodei-me.